Para o final do dia, rasgando o céu num baque, um bombão subia, esticava-se para o alto
e ao abrir-se em fogo, chicoteava forte o silêncio quieto do azul da tarde. Que alarido
incontido soprava nas veias, que alegria contida em explosão eminente, que ânsia insofrida,
a festa apontava!
Toldava-se então a tarde de um bem estar inaudito, em boninas e flores em tudo que havia,
a esperança da festa, antecâmara de amores, antecipando a emoção de cantigas e odores,
que a festa do Divino já sobre tudo aspergia.
Um após outro, da paisagem nua, emergiam os pequenos vultos que fariam a multidão
futura, mais ao cair da tarde, e traziam sorrisos e roupa de festa e o desejo de um copo para
a alegria compor. E terreiro enchia-se, ainda agora vazio, com expectantes desejos de
poesia e de humor.
E as bandeiras novas nos mastros da festa, que jaziam pendidas sob o sol da tarde, erguiam-
se com prosa, prezadas e leves, caldeando o ar para o por mais alegre.
Frente à igreja, a carreira arquejante faz um alto na rota, pesada de gente. E vai abrindo o
ventre e soltando aqueles que foram à luta e que após a labuta voltam a penates e tocam o
chão com ânsia expedita de chegar a tempo.
Nisto um zunzum, vindo da curva ao fim, onde a rua entorta para seguir além, e outro
bombão e mais um – são três! – atroam os ares cálidos e um frenesim em ondas corre e
arrepia os presentes.
Tchum-pã-tchum! Tchum-pã-tchum! – os pratos e bombo, e olha a tarola agora! E nisto os
metais rompem e enchem, aturdindo o ar inteiro pelo caminho fora. Na curva, engalanado
– são incensos e hortênsias as suas decorações – desponta o carro do vinho, em amanhos
de luxo; e os bezerros adoidados com tanta música, avançam aos corrupios para o terreiro.
E vem povo atrás e vem mais povo e lá vêm em linha os cantadores. E de novo os metais,
agora bem distintos: – po-ro-ro – ro-ro – ro-ro... É o Pezinho! As margens do caminho
pipocam de gente que engrossa o cortejo a caminho do Império.
O Pezinho avança, vai findar no terreiro, o cortejo ondulante, e o carro do vinho, gemente
e cantante, sacode as insígnias. Atrás dos cantadores, se entrevêem já as cabeças dos
tocadores e das cravelhas das violas emanam reflexos como piscadelas de olho. Vá fogo pró
ar! O Império escancara-se, que o cortejo assoma; a canalha miúda já se acotovela nos
degraus do triato.
E, em meia lua, ao redor, o povo estaca. Na dianteira, em linha, os tocadores preparam-se;
à sua frente, dignos e sérios, erguem a fronte, suada e alva, os cantadores, em direcção à
morada do Divino. À porta, em vermelho vivo, aponta o sacristão, e acomoda o hissope na
caldeirinha; e de sobrepeliz e estola, o pároco assoma, com o livro das rezas agarrado na
mão ...
Bum-bum! – ordena o bombo, e tudo cai de borco num silêncio exacto. Suaves, os arames
sugerem ao silêncio uma primeira harmonia, os acordes se afirmam se espalhando... o
primeiro cantador limpa o pigarro e proclama
Ó senhor padre vigário,
Pastor deste freguesia,
Que a Virgem com seu rosário
Esteja em vossa companhia.
Pezinho dos Bezerros! Um fremir ondulante taroleja nos peitos.
Marcolino Candeias
13-07-2009